Mantenha os amigos por perto

G.K. Chesterton diz que um homem deve escrever as próprias cartas de amor, mesmo que o faça mal. Porque é coisa pessoal, e quaisquer palavras que não as suas próprias, por belas que sejam, não comunicam o que há para ser comunicado: o amor pessoal de que sofre aquele homem. Hoje, quase que só falamos com as “palavras” dos outros – um mar de frases feitas, chavões bobos que nascem numa rede social, crescem nos virais de um influencer, se reproduzem num refrão de sertanejo e morrem. Os memes substituem as anedotas do cotidiano pessoal; as figurinhas de bom dia substituem as cartas de amor.

A era da hiperconexão é a era dos solitários. Nunca foi tão fácil nos comunicar, e nunca tivemos tanta dificuldade ao fazê-lo. Multiplicam-se os recursos técnicos, se atrofia nossa habilidade humana – e um homem hábil faz mais sem ferramentas que um inapto dispondo de todas elas.

Podemos nos falar o tempo todo se assim desejarmos. Mas falar o quê? Não sabemos. Falamos de qualquer coisa porque a necessidade de nos comunicar nos impele, mas ficamos na superfície e não falamos do que importa.

Perdão se me expresso mal, a superfície também importa. Bobagens e risadas iniciam e cimentam amizades. Mas em algum momento, é preciso ir a fundo. As amenidades dão sabor às relações, mas é preciso dar substância a elas: trazer à tona o que nos ocupa a mente na solidão; dividir as angústias e as alegrias que constituem a aventura humana; expor nossas incertezas à sabedoria alheia; se dar a conhecer. Hoje, a gente só se cruza na rua – era bom quando caminhávamos juntos.

Os que me conhecem, ao ler, me acusarão de hipocrisia – porque me conhecem. E me conhecem porque, mesmo quando não falo, não calo – tento, não consigo.

“Os olhos são a janela da alma”, diz-se. E a gente só se olha quando se encontra. “A vida é a arte do encontro”, profetizou Tom Jobim – e só os profetas enxergam o óbvio, dizia Nelson Rodrigues. Uma imagem vale mais que mil palavras – em especial, aquelas vistas a olhos nus, provam as mais banais das paisagens. Mil palavras, de longe, não fazem um olhar em silêncio, lado a lado. Mantenha os amigos por perto.

Gustavo Lima


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