Mantenha os amigos por perto

Um homem deve escrever as próprias cartas de amor, diz G. K. Chesterton, mesmo que mal. Um poeta o faria melhor, é verdade, mas “amar alguém”, ele diz, “é mais poético que amar a poesia”. O amor, em todos os seus tipos, é dessas coisas tão fundamentais que importa mais a experiência do homem comum que qualquer teoria ou discurso.

Às vezes, por apatia ou covardia, falamos demais com as palavras alheias — e nem são poesias: frases feitas e memes bobos, que nascem numa “estratégia digital”, crescem numa rede social, se reproduzem numa trend e morrem no refrão de um sertanejo. Os virais substituem as anedotas do cotidiano pessoal; as figurinhas de “bom dia” substituem as declarações de amor.

A era dos “cronicamente online” é também a era da solidão. A comunicação nunca foi tão acessível, e nunca tivemos tanta dificuldade com ela. Multiplicam-se os recursos técnicos, atrofia-se nossa habilidade humana – e um homem hábil faz mais sem ferramentas que um inapto dispondo de todas elas.

Hoje, podemos nos falar o tempo todo: e enviamos uma infinidade de reels e tiktoks. O algoritmo dita o assunto. Feeds e DMs cheios de conteúdo genérico, impessoal – quase sempre marketing travestido de “vida real”. Tratamos com uma foto de perfil ou um rosto mal enquadrado num story – meros pixels numa tela. E quando a gente finalmente se encontra… chega pedindo a senha do Wi-Fi.

Não é bem dessa conexão que precisamos. É claro que conversas triviais são perfeitamente naturais, iniciam e consolidam amizades. Mas é melhor quando falamos de nossas próprias e – tremendas – trivialidades. De preferência, nos olhando nos olhos: mil mensagens não valem um riso, uma lágrima ou mesmo um silêncio presente.

Quando não é possível estarmos juntos, faço a concessão, a tecnologia ajuda. Mas, com frequência, também acomoda. A gente dá mais jeito de se ver de verdade quando não é possível se ver à distância. Assim é que surgem aquelas ocasiões – “eventos canônicos”, como por aqui se diz – em que, organicamente, passamos das amenidades, que dão sabor às relações, ao que lhes dá substância.

Então experimentamos interações transformadoras: compartilhamos histórias, preocupações e sonhos, fracassos e conquistas; expomos nossas incertezas e angústias ao conselho e ao carinho dos nossos – em vez de tê-las virtualmente respondidas (e concretamente agravadas) pelos chavões marketeiros de coachs e influencers. É quando podemos curtir juntos – com gosto, aroma, contato – nossas alegrias.

Os que me conhecem bem, ao ler, me acusarão de hipocrisia – porque me conhecem bem. E me conhecem porque me encontram: mesmo o que não se fala, cara a cara, dificilmente se esconde. “Os olhos são a janela da alma”, diz-se, ou “a luz do corpo”, Ele diz. E a gente se olha – e se ilumina – quando se vê.

“A vida é a arte do encontro”, profetizou Tom Jobim – e “só os profetas enxergam o óbvio”, dizia Nelson Rodrigues: é tão óbvio que a gente precisa se encontrar mais! Por aqui, é como se esbarrar, apressadamente, na rua. É tão melhor caminhar, passo deliberadamente lento, juntos. Mantenha os amigos por perto.

Gustavo Lima


Posted

in

by

Tags:

Comments

Deixe um comentário