Um dia, eu fiquei sozinho. Não tinha nenhum compromisso, não ia encontrar ninguém, já morava sozinho mesmo, e resolvi ficar em casa. Nesse dia faltou luz no meu bairro, então o único barulho que havia por lá era o de carros passando e o pessoal da Enel fazendo reparos no transformador, no poste, na fiação, algo assim.
Deitei na cama e, olhando pro teto, comecei a entrar profundamente nos meus pensamentos e revisitar minha vida até ali – e é BIZARRO o quanto os momentos ridículos aparecem rapidamente. Parece que teu cérebro quer te zoar.
– Lembra quando você tinha 6 anos e subiu no palco do Palhoça pra fazer um stand-up?
– Lembro, cara. Lembro.
– E aquele dia que tu tava no bodinho da Praça da Liberdade e resolveu descer dele em movimento? E ralou o joelho todo?
– Lembro também.
– Até tua vó ficou te zoando! “Alá, ao invés de pegar o bonde andando você foi descer do bode andando!”
– …
Os pensamentos foram muito mais longe do que isso. Desde incríveis “micos” no colégio (aquela terra selvagem onde prevalece a lei do mais forte — aquele que tem resposta pra tudo) até escândalos no meio da rua por conta de relacionamentos. Quem nunca? Tá, você aí que tá lendo pode dizer “eu, nunca!” e rir da minha cara.
Naquele dia solitário, eu ri da minha cara. Cheio de vergonha ao relembrar esse monte de coisas, mas eu ri da minha cara. E como foi trabalhoso rir de mim mesmo e aos poucos ir sentindo menos vergonha! Esse processo ainda tá em processo. Às vezes a gente se auto-zoa como defesa, né? Antes que alguém me humilhe, eu mesmo me dou ao trabalho. Mas a pergunta que quero deixar aqui é: por que raios a gente se leva tão à sério a ponto de sentir vergonha por coisas tão banais?
Se levarmos essa vergonha às últimas consequências, tudo fica mais pesado. TUDO. Aquela timidez enraizada no orgulho que vai paralisar a gente frente ao risco de se expor, aquela omissão na hora de botar um talento pra jogo, aquela cara fechada e a raiva incubada quando alguém me “ofende”… Olha quanto trabalho dá viver assim!
Chesterton disse uma vez que não tem como ofender um cristão. Não tem como! Se falam algo de você, isso pode ser mentira ou verdade. Se for mentira, vai se ofender por quê? Se for verdade… Vai se ofender por quê? Provavelmente a verdade mesmo é até pior.
Quem carrega dentro de si um senso de humor sólido se torna mais leve pra quem tá perto, mas MAIS AINDA pra si mesmo! A quantidade de preocupações que desaparecem quando o senso de humor está presente é enorme. E não é humor no sentido de “piadinha”, não (isso também tem aqui, mas vamos deixar pra outro texto). É aquele humor que sabe acolher um bom insulto — amizades masculinas são craques nisso! — e que sabe também que tem fraquezas muitas vezes aparentes, e elas sempre são oportunidades de sermos melhores.
O Frejat, numa música, disse que “rir de tudo é desespero”, e penso que ele está certo. Não precisa levar tudo na galhofa e virar uma mistura de bobo da corte com palhaço de circo (eles se parecem, mas são essencialmente diferentes!). Mas um senso de humor sólido de verdade permite bater de frente com um limite seu ou do outro e levar isso como algo corriqueiro, que às vezes deverá ser contornado, ou tratado, ou ignorado! Cara, você é INEPTO pra, sei lá, pintar uma parede. E tá tudo bem! Você pode rir daquela vez que você tentou e ficou HORROROSO, chamar um pintor pra consertar a sua cagada e rir disso com ele. Mas isso só acontece se você for capaz de rir disso sozinho.
Saber rir de si mesmo é fonte de felicidade também: as coisas ficam mais leves, a vida fica menos dura, e quando você lembrar do dia que você sentou numa calçada no Centro chorando COPIOSAMENTE por causa de um pé na bunda, com seus amigos achando que você ia desmaiar e indo buscar água e falando “Não vale a pena, cara!”, você vai rir.
Pode ser que esse caso tenha acontecido comigo.
Adriano Reis
Coordenador da Oficina de Valores


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