A penúltima bem aventurança de Thomas More nos coloca diante do paradigma do nosso sistema de crenças e dos nossos pensamentos automáticos. Dentro da Psicologia há um importante campo de estudo que se chama “cognição”, a cognição diz respeito aos nossos pensamentos, memória, linguagem, percepção, crenças pessoais etc. Repare que este conjunto de elementos dá conta da nossa maneira de ser e estar no mundo. Nós temos uma percepção sobre os acontecimentos que compõem a nossa história de vida, essas percepções formam as nossas crenças (com base em nossas memórias) e as crenças que temos influenciam em nossos atos, na nossa linguagem e em nosso jeito de ser.
Posto isso, a pergunta que se coloca é: “é possível agir sem antes pensar?”. Levando em consideração o caminho que fizemos até aqui, a resposta mais óbvia seria: “não”. No entanto, ao mesmo tempo em que o nosso cérebro é extremamente plástico e potente, ele também é “preguiçoso”, há uma tendência natural para a identificação de padrões comportamentais que simplesmente repetimos com base em nosso repertório cognitivo. Em outras palavras, boa parte das vezes acabamos não pensando antes de agir, porque no nosso sistema de crenças já existem vários padrões estabelecidos que atuam sobre nós de modo a gerar respostas automáticas. Um exemplo disso: você já se pegou navegando nas redes sociais durante longos minutos, talvez horas sem sequer perceber o que estava fazendo? Outro exemplo, você já se propôs a realizar no dia uma checklist mental de tarefas e ao fim do dia se deu conta que não fez absolutamente nada do que havia planejado? Os dois exemplos demonstram que nosso comportamento é mais programado e menos racional do que aparenta ser à primeira vista.
O sábio Tomas More identificou os riscos disso ao alertar para o perigo de agir sem pensar. Trata-se, segundo ele, de um caminho para a infelicidade. Não é raro se deparar com jovens e adultos queixando-se nas redes sociais da dificuldade que têm em superar a procrastinação; outro fenômeno recorrente é o das pessoas que acumulam grandes frustrações, seja de caráter profissional, seja de caráter afetivo, porque fizeram escolhas ruins, pouco amadurecidas, movidas por aquilo que podemos chamar de emotivismo, conceito de Macintyre¹. De fato, não seria exagero dizer que precisamos reaprender o caminho de pensar antes de agir.
Os teóricos da Terapia Cognitivo Comportamental nos darão um importante ferramental para tratar essa questão. Aaron Beck propõe instrumentos que avaliam como atuam sobre nós os nossos pensamentos automáticos² (os modelos cognitivos que nos levam a atitudes impensadas) e propõe estratégias para que aprendamos a questionar os nossos próprios padrões de pensamento. Evidente que a plena aplicação disso só acontece mediante a um acompanhamento psicoterapêutico especializado, no entanto, o princípio pode ser pensado de maneira livre: há um convite à reflexão! “Cogito, ergo sum”³: a emblemática máxima de Descartes, “penso, logo existo”, aponta exatamente na direção de uma das faculdades da alma humana chamada “cogitação”. O comportamento baseado em padrões de pensamento, como os descritos anteriormente, é semelhante ao comportamento animal, entretanto, há no ser humano uma capacidade de cogitar, refletir, ir além do pensamento automático e modificar os próprios padrões, de crenças pessoais e de atitude, e é nessa atitude que o ser humano desbloqueia uma segunda dimensão: não somos apenas físicos, biológicos, somos também psicológicos, cogitamos, pensamos, reorganizamos e decidimos.
Poderíamos afirmar, com base no pensamento de Thomas More, que agir sem pensar nos leva à infelicidade porque nos desumaniza, aproxima o nosso comportamento do modus operandi dos animais. Enquanto o movimento de reflexão, parar e encarar o que pensamos, o que sentimos, nos permite acessar a nossa capacidade humana. Só que ele não para por aí, pois a sentença diz: “felizes os que pensam antes de agir e rezam antes de pensar”. Ele introduz um novo conceito, que é a perspectiva da oração, concebendo, portanto, uma tridimensionalidade no ser humano, a física (o pensamento baseado no padrão), a psicológica (o pensamento baseado na cogitação) e a espiritual (o pensamento baseado na transcendência). Ao constatar o itinerário feito pelo autor para chegar à sentença que norteia a nossa reflexão, percebemos que no pano de fundo de sua concepção de ser humano está um ser bio, psico, espiritual!
O Papa João Paulo II, em sua encíclica “Redemptor Hominis”4, apresenta a seguinte proposição: “Cristo, que é o novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu Amor, revela também plenamente o homem ao mesmo homem e descobre-lhe a sua vocação sublime”. A ideia presente na obra do teólogo do século XX confirma o pensamento de Tomas More no século XV: o ser humano só acessa o máximo de sua potência existencial mediante à abertura ao transcendente. Este exercício de sair de si mesmo para ouvir a voz de Deus enquanto se abre a uma reestruturação cognitiva é o que permite ao ser humano não ser escravo de seus próprios reflexos, prisioneiro das próprias misérias.
Em suma, poderíamos afirmar que agir sem pensar é a manifestação do aprisionamento do ser humano em sua própria maneira limitada de enxergar a realidade. Pensar antes de agir é o primeiro passo para a libertação, porque permite alargar o campo de visão, enxergar outras possibilidades e decidir de forma mais consciente por aquilo que se quer realizar. No entanto, o ápice reside na abertura ao transcendente, onde Deus revela o chamado e essa revelação ilumina todos os outros processos, libertando o ser humano de si mesmo, da prisão do egoísmo e preparando-o para servir verdadeiramente com as suas capacidades e potências racionais e é esse o caminho que possibilita ao homem experimentar a verdadeira felicidade!
Rodrigo Moco
Mestre em Psicologia
REFERÊNCIAS
¹ MACINTYRE, Alasdair. After Virtue: A Study in Moral Theory. Third Edition. University of Notre Dame Press, 1981.
² Beck, A. T., & Alford, B. A. (2011). Depressão: Causas e tratamento (2ª ed.). Porto Alegre: Artmed. (Originalmente publicado em 2009).
³ DESCARTES, René. Meditações. (Os Pensadores) São Paulo: Abril Cultural, 1983.


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