O preço da caridade

Curiosa nossa associação da bondade à ingenuidade. Dizemos das crianças que são puras, em parte, porque não sabem coisas — que são inocentes porque são ignorantes. E pessoas ditas “boazinhas” por uns são chamadas “bobas” por outros.

Os vilões de nossas histórias são, em geral, inteligentes. Estrategistas ardilosos. Ao passo que os heróis compensam sua frequente desvantagem intelectual com virtudes como bravura, confiança e humildade. É como se o mal fosse cabeça, enquanto o bem é coração.

Os exemplos, múltiplos, remontam a narrativas ancestrais, como a do Gênesis e a da Caixa de Pandora. Na alegoria hebreia, Deus impõe ao recém-criado bicho Homem uma única vedação: não comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal; o descumprimento da ordem, o primeiro pecado, faz o mal entrar no mundo. No mito grego, a primeira mulher criada pelos deuses recebe uma caixa que não deveria ser aberta; ao ceder à curiosidade — o desejo de saber —, Pandora libera todos os males sobre o mundo.

Tudo isso parece apontar à ideia de que o conhecimento corrompe. Que a ignorância, como diz o adágio, é uma benção. Ideia que chega a encontrar eco em alguns filósofos mais pessimistas.

A corrupção da humanidade está há muito sacramentada, qualquer livro de História o atesta. E a corrupção de cada pessoa — a perda da inocência original da infância, quando até os atos maus, em geral, não são imbuídos de uma malícia consciente — é inevitável. Dizê-lo parece uma condenação, mas é, antes, uma proposta ou uma convocação: existe bondade neste nosso mundo decaído, e ela é evidente — brilha quando, mesmo rara, é vista —, mas exige atos positivos e conscientes.

É impossível ser bom, verdadeiramente bom, por inércia. A ignorância pode, no máximo, atenuar a nossa culpa pelos erros que inevitavelmente cometeremos — nem que sejam de omissão. A verdadeira bondade não é mera preservação contra o conhecimento do mal, mas a escolha ativa do seu oposto. As pessoas realmente boas não são as que desconhecem a maldade, mas as que decidem contra ela — têm o seu mal sob controle.

As pessoas maliciosas, se não em suas ações, pelo menos em sua visão de mundo e dos outros, supõem que a maldade que há nelas também existe nos outros. Estão corretas. Mas o que ignoram — e é conhecimento fundamental — é que os outros podem ser movidos de boas intenções que elas desconhecem. Em outras palavras: que apesar de semelhantes em nossa fraqueza moral, não somos iguais em resignação a essa condição. E as pessoas bem intencionadas, em geral, são virtuosamente capazes de supor a boa intenção alheia. Entendem que, se somos iguais no que temos de mau, podemos ser iguais no que temos de bom.

As pessoas boas não o são porque desconhecem as vantagens ou prazeres do erro, mas porque conhecem os grandes benefícios de evitá-lo. E têm esperança nos outros, como têm em si mesmas, não porque, ingênuas, supõem que todos sejam bons, mas porque, sábias, entendem que todos podem ser bons. Esta é, como diz G. K. Chesterton, “a verdade eterna e essencial de que, até que nós amemos algo em toda sua feiúra, não podemos torná-lo belo”¹.

Ou, do mesmo autor, em outra obra: “Há coisas que devem ser amadas antes de serem amáveis”². A prática do bem em seu mais alto grau, a caridade — o amor gratuito, abnegado, heróico, muito pouco romântico ou sentimental — supõe uma esperança sobrenatural na redenção humana, uma fé inabalável no potencial de cada indivíduo para o bem. Acreditar na bondade latente das pessoas é difícil, mas é a única forma de fazê-las enxergar a si próprias da mesma forma.

“São bem-aventurados”, diz São Tomás More, “os que conseguem interpretar com benevolência as atitudes dos outros, mesmo contra as aparências: serão considerados ingênuos, mas este é o preço da caridade“.

¹Varied Types, G.K. Chesterton, 1905

²Ortodoxia, G.K. Chesterton, 1908


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