A linguagem é subestimada. Ou não estimada – não se pensa o suficiente sobre o seu valor. As ações movem o mundo. As ideias orientam as ações. A linguagem comunica as ideias. Se não falássemos, não pensaríamos. Se não pensássemos, não agiríamos; ou melhor, tragicamente, o faríamos sem razão.
Conhecer a palavra certa, a palavra exata, precisa, perfeita para transmitir uma ideia – ou sentimento, emoção, qualquer experiência interior, psicológica, abstrata – é um poder. Nestes tempos, um superpoder. Porque as ações são operárias, mas as palavras, governantes. Quem tem boca, vai à Roma – ou vaia Roma; a confusão sobre o dito é significativa: com a voz, se constrói e se destrói.
Retomo o argumento, apresento outra implicação: conhecer a palavra certa nos humaniza. Nunca falamos tanto, nunca dissemos tão pouco. Balbuciamos, grunhimos, coaxamos uma verborragia vazia, que significa um quase-nada. E, dentro de nós, fala alto e claro o desejo por significado, por sentido. O que diferencia o Homem, disse o filósofo, é capacidade de pensar sobre a própria condição. O que diferencia a Humanidade, me permito inferir, é a habilidade de dividirmos o que pensamos.
Muita abstração, pouca prática. Eu sei, esse sou eu, entre outras coisas; e entre outras coisas, sou também um estudante de inglês. Um às vésperas de uma prova. Adoro provas – chuto bem, I guess. Essa é a minha esperança, porque meu inglês não é tão bom. E isso é angustiante, nem tanto pela prova. Se você fala ou tenta falar outro idioma, conhece a sensação de procurar uma palavra e não encontrá-la. Você sabe que ela existe, sabe que já escutou, mas… blank. Sorry, branco.
Mais sútil, embora mais grave, é ter essa experiência com o próprio idioma. Querer dizer e não saber como. Sentir que as palavras escolhidas, por suposta escassez de opções, não dão conta do que se pensa, se sente, se quer expressar. Sutil, eu dizia, porque, juramos, somos fluentes em nossa língua materna e, se não encontramos a palavra ideal, cremos que ela não existe. Pois saiba que nunca se conhece uma mãe de todo. As palavras estão lá, nós as ignoramos.
Já viu uma relação – familiar, amorosa, profissional, qualquer seja – complicar ou acabar por má comunicação? Não “falta de”: comunicação má. Você fala, sente que não é entendido. O outro fala, e tudo soa absurdo – como pode pensar assim? Talvez seja melhor medir – dissecar, comparar, testar e, enfim, escolher – suas palavras. Fica mais fácil, mais natural, com o tempo.
E nem só do que fala vive o homem, mas também da palavra que sai da boca dos outros: seja curioso sobre o que elas significam para quem as está falando. Às vezes, será como aprender uma nova língua, um idioma único e inédito, pessoal. Vale o esforço. Se você não tenta ser bom entendedor, nem todas as palavras do mundo vão bastar para que você compreenda as pessoas.
Também é comum a experiência oposta: sentir que alguém expressa melhor que você o que se passa aí dentro. Não é mágica, é léxico – ou lábia. Os poetas – e os vigaristas – ganham a vida com ele(a). Se você não souber se expressar, estará sempre em desvantagem – alguém vai falar por você; e, às vocês, por você para você: vai te dizer quem você é, e talvez se (te) engane.
Sem desculpas. “Não tenho palavras para descrever…” é elogio mais cretino do mundo. Ora, procure-as! Elas existem. “Não sei como dizer…” é de uma preguiça ordinária: se você não se esforça por se fazer entender, não espere que os outros entendam. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça; olhos, leia; boca, fale. Comunique-se, o melhor que puder. Seja fluente na própria língua. Se não souber por onde começar, comece com as palavras.
Gustavo Lima


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