O Corpo e as Regras

 

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“Meu Corpo, minhas regras”. Em decorrência de diversas manifestações pró-aborto, essa frase ganhou muito destaque. E ganhou destaque porque contém grandes verdades.

Ninguém em sã consciência deve questionar o fato de que a liberdade é um direito fundamental. Seria louco, ou mau caráter, alguém que não defendesse a sacralidade do corpo. Violar o corpo é violar a pessoa e isso é uma grande afronta à dignidade humana.

“Meu corpo, minhas regras”. Apesar da verdade que a frase contém, isso não faz com que ela seja desprovida de erro. Na realidade, quanto maior a parcela de verdade que um erro contém, mais grave ele vem a ser.

Embora o direito ao próprio corpo seja algo fundamental e sagrado, nenhum direito é absoluto. Todos os direitos devem harmonizar-se em um sistema que faça com que um não destrua o outro. Além disso, os direitos de cada indivíduo devem ser vividos de forma tal que os direitos dos outros indivíduos não sejam violados. É o velho papo de “meu direito termina quando começa o do outro”.

É exatamente na absolutização de um direito que está o erro do “meu corpo, minhas regras”.

No aborto, há a absolutização do direito ao corpo da mãe em detrimento ao direito à vida da criança que está no útero.

Claro que neste ponto há uma “solução” fácil: negar ao feto o caráter de outro, de semelhante portador de direitos. O paradoxo é que isso acontece numa época onde a cada dia são reconhecidos mais direitos para mais pessoas (e até para animais).

“Meu corpo, minhas regras”. A absolutização de direitos que essa frase promove, se for levada às últimas consequências, acaba por dizer que a mãe tem mais direitos sobre o filho que o pai. E direitos levam a deveres….

Se o “meu corpo minhas, regras for aplicado” significa que, caso uma mulher fique grávida, cabe a ela e somente a ela decidir sobre o destino da criança. Ou seja, mesmo que o pai diga que deseja criar a criança e que o fará sozinho, a mulher pode decidir abortar, afinal o feto está no corpo dela.

Penso que essa postura guarda alguma semelhança com a dos homens que abandonam as mulheres após engravidá-las dizendo que o filho é apenas delas.

Claro que homem algum sabe o que é carregar uma criança no próprio corpo. Não sabe o desconforto que isso gera. Não sabe também a alegria que daí pode vir. Claro que é a mulher que arca com boa parte das dimensões da gravidez. Durante nove meses o sacrifício é dela, mas durante o restante da vida da criança, ele deve ser dos dois.

Imaginem um homem que, para forçar uma mulher a abortar ou para abandonar uma criança, utilizasse alguma frase do tipo: “minha grana, minhas regras”, ou “minha vida, minhas regras”. Não é preciso nem comentar para fazer com que o absurdo salte aos olhos…

Claro que o corpo é muito mais sagrado que o dinheiro ou a propriedade, mas o princípio que rege os raciocínios acima e o “meu corpo, minhas regras” são muito parecidos. A partir de algo que é meu, surge um suposto direito de não me responsabilizar por um outro. No caso em questão, pela criança em gestação.

Claro que nesse ponto muitos podem dizer: “Mas uma multidão de homens tem sido irresponsável diante da gravidez de suas companheiras”. E sou obrigado a concordar que essas pessoas têm toda a razão. Não são poucas as mulheres abandonadas quando grávidas e obrigadas a lidar com uma situação por vezes muito difícil, desesperadora até.

Não exagero ao chamar esse abandono da mulher grávida, e da criança em seu ventre, de aborto cometido por homens. Também não é exagero dizer que um homem que faz algo desse tipo é mais responsável pelo aborto que muitas mulheres que consumam o ato. Várias delas o fazem movidas pelo desespero decorrente do abandono.

Acontece que o aborto funciona, a partir de certo ponto de vista, como uma “solução simples” para um problema complexo. “Meu corpo, minhas regas” – o projeto político por trás dessa frase parece advogar o seguinte: se o homem pode não arcar com as consequências de uma gravidez, a mulher também deve ter esse direito. Isso, além de desconsiderar inúmeros aspectos da situação e a vida que está sendo gestada, tenta resolver o drama da gravidez desresponsabilizando a mulher pelo destino da criança. O caminho mais correto seria responsabilizar mais o homem pela vida de quem ele ajudou a gerar.

Claro que mesmo um homem responsável também pode se desesperar e não enxergar alternativas. Uma gravidez indesejada pode gerar muita ansiedade e sofrimento. Aí, mais uma vez, o aborto aparece como uma possível “solução”. Uma solução que desresponsabiliza a sociedade e o Estado. Afinal,  em vez de promover o aborto, seria mais humano garantir condições para que pai e mãe pudessem ter a criança; seria melhor trabalhar na conscientização das famílias para que lidassem melhor com a situação. Isso para não falar na melhoria dos processos de adoção e de um sem número de outras medidas.

O mundo será melhor, não quando o aborto for assegurado como um direito, mas quando diante de uma mulher que deseja (ou se vê compelida) a abortar e argumenta dizendo “meu corpo, minhas regras”, a resposta do homem que a engravidou (e, em outra medida, do restante da sociedade) for abraçar essa mulher e dizer:

“O corpo pode ser teu, mas o filho é nosso.”


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