Este tom de proximidade e intimidade está bastante presente no último documento assinado pelo Papa, a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, que traduzido para o bom português significa “Alegria do Evangelho”. Este documento tem ainda a característica de ser “pós-sinodal”. O que significa isso? Significa que bispos do mundo inteiro foram convocados para pensar e aconselhar o papa sobre um assunto específico e que o documento foi escrito levando-se em conta tudo aquilo apontado por pessoas provenientes dos cinco continentes. O tema da vez foi a “Nova Evangelização”, que é, entre outras coisas, o esforço da Igreja por levar o Evangelho a regiões e pessoas que já o receberam. Resumindo: a cristianização do que outrora foi cristão.
No início da Evangelii Gaudium é dito que “hoje os documentos não suscitam o mesmo interesse que noutras épocas, acabando rapidamente esquecidos”. Infelizmente tal diagnóstico é verdadeiro e muitas riquezas dos últimos papados têm sido sumariamente ignoradas. No que diz respeito a esta última exortação apostólica do Papa Francisco, deixá-la de lado será uma perda muito grande, tantos para católicos quanto para não católicos. Há nela um belo programa para a Igreja que, sendo aplicado, tem o poder de gerar bons e necessários frutos.
Um dos pontos que mais encanta no texto da Evangelii Gaudium é que ele poderia ser bastante impessoal, visto que é fruto de uma elaboração inicial coletiva; no entanto, o Papa Francisco consegue transformar um documento oficial numa espécie de carta para amigos. Em diversos momentos apresenta um tom coloquial e escreve como quem conversa e aconselha.
O conteúdo da carta toca em vários aspectos da vida da Igreja hoje, além é claro de traçar diretrizes para o trabalho dos cristãos no futuro próximo. Resumido dessa maneira, no entanto, não se comunica a beleza e a força das palavras do Papa nesse documento. Há, na Evangelii Gaudium uma convocação aos católicos para que assumam a mensagem que lhes foi confiada. Além disso, é presente um apelo para que se separe o essencial do Evangelho daquilo que, embora belo, lhe é apenas complemento. Nesse aspecto o atual pontífice segue de perto a famosa sentença de Santo Agostinho: “No essencial a unidade; no duvidoso a liberdade; e em tudo a caridade”.
O título do documento entrega bem sua mensagem central: O Evangelho é a grande fonte de alegria e os cristãos tem o dever de transmiti-lo. Transmiti-lo traduzindo-o para cada cultura ou situação e respeitando a liberdade daqueles a quem é dirigido. Os cristãos devem adotar uma postura de diálogo, mas devem sempre comunicar o Evangelho. Deixar a dinâmica missionária de lado é destruir o próprio cristianismo.
O Papa Francisco, considerado por tantos um revolucionário, simplesmente repete a mensagem que os cristãos vem insistindo já faz dois mil anos: no encontro com Jesus Cristo encontra-se a alegria. Esse encontro, no entanto não é uma posse definitiva, mas algo que deve ser renovado diariamente na vida daquele que crê. Esse encontro com o divino não é algo meramente “espiritual”, mas ganha carne no encontro com o outro.
Há uma grande insistência nas consequências sociais da evangelização. Há, na Evangelii Gaudium, o seguinte diagnóstico: “a desigualdade é a raiz dos males sociais”. A luta por um mundo mais fraterno não pode, no entanto, ser resumida em planos econômicos melhores e a uma política mais justa. É necessário contato, é essencial o encontro com aquele que está em situação desfavorecida.
É perceptível no Papa a preocupação com certas posturas religiosas que cultivam ao pessimismo frente ao mundo contemporâneo. Não nega os desafios, mas afirma que o desespero costuma ser fruto de uma espiritualidade superficial e egoísta.
Como já mencionado, a alegria está no encontro com Cristo. Em encontrá-lo e em se entregar a Ele. Há diversas passagens na qual o papa fala sobre a tristeza que decorre de uma negligência egoísta e de uma indiferença individualista. Contra tal postura, ele diz de forma direta: “Não se vive melhor fugindo dos outros, escondendo-se, negando-se a partilhar, resistindo a dar, fechando-se na comodidade. Isto não é senão um lento suicídio.”
Para o Papa Francisco o “grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é a tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, não se ouve a voz de Deus, não se goza da doce alegria do seu amor nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Esse risco, certo e permanente, correm também os crentes. Muitos caem nele, transformam-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha de uma vida digna e plena nem o desígnio que Deus tem para nós.”
Em oposição à tristeza contemporânea, o Papa apresenta a alegria do Evangelho. Tal alegria, na contramão da atual visão de mundo, não se encontra no ter e no isolar-se, mas em ser, encontrar-se e doar-se.
O projeto é simples. Uma antiga mensagem que continua sendo eterna novidade. O Evangelho, dois mil anos depois, continua sendo alegria e a alegria nunca deixará de ser evangelho, isto é, uma tremenda boa notícia.
OBS: todas as citações, salvo indicação em contrário, foram retiradas da “Evangelii Gaudium – A Alegria do Evangelho, publicada pela Editora Paulus em conjunto com as Edições Loyola.


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