Relato de um a-PAI-xonado

Maria, filha do Vinicius e da Jéssica

 

Era noite de sábado. Voltamos pra casa, pra recebermos a maior das confirmações. Enquanto preparava o que comer, minha esposa Jéssica me chamou e, sentados no braço do sofá, nos abraçamos, atônitos com aquilo que Deus nos reservara. Na véspera do dia das mães, descobri que seríamos pais.

As pernas estremeceram, mas, surpreendentemente para mim, o coração não. Foi como se no fundo ele já soubesse, ou já ansiasse, apesar de eu sempre dizer o contrário.

Daí em diante se seguiram quase nove meses de intensa preparação. Preparação da casa, que mudou; preparação dos planos, que mudaram; preparação do matrimônio, que mudou; preparação da alma, que mudou. Inacreditavelmente (para quem não crê) todas as mudanças foram, apesar de repentinas, para a melhor. Era sensível que o ar de nossa casa, mesmo a antiga, era mais leve, mais doce. Era claro que o que saltava em nossas mentes quando pensávamos no futuro era ela. Era visível que nossa cumplicidade e nosso amor eram agora muito mais intensos e que tinham muito mais “porquê”. Era óbvio, até para o menor dos observadores, que eu não era mais o mesmo. E nem queria ser.

Imaginar seu rosto e seu sorriso já não deixava, graças a Deus, mais espaço para o velho eu, que por vezes procurava retornar.

Ao final da gostosa e ansiosa espera, o grande dia chegara. Era estranho pensar – e felizmente não houve muito tempo para tal luxo – que em pouco tempo estaria em meus braços, contando com meu colo, precisando de minha presença.

Confesso que não achei que daria conta. Presenciar uma cirurgia era algo que, sem a menor dúvida, eu jamais faria pela minha própria vontade. Mas agora já não era mais a minha vontade que me faria andar, nem a minha própria força que me manteria de pé. Ouvi muitos pais e mães dizerem que era a melhor sensação do mundo, mas o que senti ao vê-la nascendo nem de perto se comparava com o que havia imaginado. Nem ousarei tentar explicar. Só posso dizer que todos estavam certos.

Pude ver os olhos da minha esposa lacrimejarem, felizes, ainda na mesa de cirurgia, ao trazer nossa pequena em meus braços.

Daí em diante, definitivamente, o mundo não era mais o mesmo. Experimentei uma calma que jamais pensei poder sentir, especialmente diante de tantos amigos emocionados. Experimentei o amor.

Os dias vêm se passando e cada um deles nasce com um sentido diferente, motivado por três pequenas coisas.

Seu cheiro, inconfundível, maravilhoso, capaz de perfumar todo meu dia, mesmo a quilômetros de distância, e de me fazer ansiar desesperadamente pela volta para casa. Uma essência que não se pode encontrar em nenhum outro lugar e nem se pode reproduzir, pois, diferentemente de outros odores, é fruto de um sentimento, é única.

Suas mãos, pequeninas, com lindos dedos compridinhos, que mostram sua fragilidade e sua doçura. Nada é mais emocionante do que sentir sua mãozinha segurar firmemente meu dedo. Nada me dá mais vontade de levantar e seguir em frente, pra que minha mão possa estar firme sempre que precisar segurar a dela.

Seu olhar, profundo, penetrante. Sei que esses olhos não entendem o que veem, mas isso não me importa, pois os meus também não entendem o que vejo. Aliás, os de ninguém entendem. E agora percebo que entender não é o que de fato importa. O que sei é que a amo. Talvez esteja aí a parcela mais perceptível da centelha divina em nós. Uma certeza absoluta e incompreensível, descoberta por meio de Maria, de que o amor é a maior de todas as virtudes.

 

Vinícius Mano – Pai da Maria

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