A questão do aborto tem nas últimas décadas gerado debates acalorados. As diversas posições podem ser alocadas em dois principais lados: os pró-vida e os pró-escolha. Os termos são de certa maneira autoexplicativos, com um dos lados defendendo a proibição do aborto e o outro afirmando que o mesmo é um direito. Esta discussão é bastante difícil, uma vez que versa sobre valores pouco triviais. O intento deste texto não é descrever o debate, elencando argumentos de ambas as posições. Também não visa uma síntese. O objetivo na verdade é muito mais simples: explicar quais as implicações de assumir uma postura pró-vida.
Uma crítica que grupos pró-escolha fazem àqueles que se definem como “a favor da vida” é que quem assume essa posição normalmente o faz movido apenas por moralismo. Dizer isso significa dizer que boa parte de quem é pró-vida é apegado a uma regra e desconsidera as consequências sociais da mesma, não se importando com o sofrimento de pessoas que vivenciam cotidianamente dramas muito difíceis.
Por mais duro que seja, reconheço que tal crítica tem sua razão de ser. Realmente a notícia de uma gravidez que deveria ser fonte de grande alegria, é, por muitas pessoas, recebida com um nó na garganta. Não é difícil pensar em situações que gerem tal reação: dificuldades financeiras graves, ausência de um vínculo familiar estabelecido, repúdio da mulher grávida por parte daqueles que lhe são próximos. Se a resposta para essas pessoas for simplesmente um “não aborte”, por mais que esteja eticamente correta, tal atitude é, no mínimo, humanamente pouco sensível.
Se a postura pró-vida for compreendida simplesmente como ser contra o aborto, ela é por demais esvaziada e o discurso, embora traga uma grande verdade, torna-se socialmente pouco convincente. Felizmente ser pró-vida é mais que isso. Quanto mais? Muito… Seguem abaixo algumas das características essenciais na definição de tal atitude.
Ser pró-vida é sim acreditar na sacralidade e na dignidade da vida humana desde o momento da concepção. Isso faz com que se deseje proteger o embrião para que cresça saudável. Por isso se é radicalmente contra o aborto.
Ser pró-vida significa estar ao lado das mulheres fragilizadas pela vida e que se encontram despreparadas para a maternidade. Significa apoiá-las em suas necessidades e ajudá-las a enfrentar os desafios que a gravidez e o filho acarretarão.
Ser pró-vida implica lutar politicamente de forma ampla. E essa luta não se resume a não aprovação do aborto. Essa luta envolve o acesso a uma saúde de qualidade para todos, de forma especial para grávidas e crianças. Envolve também o compromisso por uma educação de qualidade e por políticas públicas que promovam o crescimento integral. Quem é pró-vida é contrário a qualquer tipo de aborto, inclusive o social.
Ser pró-vida envolve enxergar a dignidade humana naqueles que possuem algum tipo de deficiência e buscar estratégias de inclusão.
Ser pró-vida significa olhar para cada criança com esperança, mesmo quando, infelizmente, mesmo sendo tão nova ela já foi muito maltratada pela vida e em seus olhos estão a tristeza de uma infância perdida.
Ser pró-vida é encarar a sexualidade como um dom de grande beleza, mas que pode ser instrumentalizado ou vivido de forma banal. Há também o risco de redução da sexualidade a um imperativo do prazer que ignora a dimensão da entrega. Nesse sentido, ser pró-vida significará a vivência de uma sexualidade integrada. Implicará também fazer o possível para que jovens e adolescentes tenham uma educação sexual verdadeiramente humanizadora.
Quem é pró-vida se compromete a promover a convivência em família e a estimular que os pais deem atenção aos filhos. Significa também respeitar e valorizar os idosos que ainda hoje muitas vezes padecem de solidão.
Muito ainda podia ser disto sobre o significado de uma visão de mundo pró-vida, mas muitas vezes o excesso de exemplos pode mais atrapalhar que ajudar. Cabem ainda algumas considerações.
Tanto quem é pró-vida, quanto quem é pró-escolha defendem valores absolutos. Para uns é a vida, para outros a liberdade. É importante notar que toda visão política elege algum (ou mais de um) valor sobre o qual se alicerça. Em uma sociedade liberal, por exemplo, uma pessoa por mais que queira não pode vender-se como escrava. Não pode fazer isso porque isso seria abrir mão da liberdade, direito que é tido como fundamental e como garantia de muitos outros.
Quem é pró-vida está dizendo que a vida é um direito absoluto que antecede e dá condições a todos os demais. Defender a vida significa então agir de modo que o outro não seja privado daquilo que é fundamental para que todo o restante venha. Defender a vida significa defender que todos possam, no presente ou no futuro, fazer escolhas. É triste saber que muitos que defendem a escolha, conscientemente ou não, fomentam uma situação que fará com que, hoje ou amanhã, vários não tenham vida.
A defesa da vida, como busquei demonstrar é algo muito amplo e exigente. E não podia ser diferente, afinal tal defesa não significa apenas buscar garantir a mera sobrevivência, mas o desenvolvimento humano em todos os sentidos. Desenvolvimento que infelizmente muitos são privados, seja porque tem o nascimento voluntariamente impedido, seja porque são forçados a viver em um ambiente muito pouco favorável.
Creio sinceramente que quem defende que cada ser humano gerado tem o direito de nascer, de crescer e desenvolver suas capacidades não pode ser acusado de moralismo. Tal pessoa está longe de adotar um legalismo frio que não se importa com as consequências das normas sobre os outros. Na verdade é justamente o contrário. Defende uma norma justamente porque julga que ela protege ou promove a dignidade dos demais. Quando essa é a postura, moralismo não é a palavra correta. Há outra bem melhor…. Qual? Humanismo.


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