Quando começamos esse trabalho com o blog da oficina de valores, não imaginávamos o que aconteceria, se seriamos lidos, e se fossemos lidos, se seriamos bem recebidos pelo tipo de texto que nos propomos a escrever e publicar no blog. Mas, quanta alegria nesses meses em que o blog está funcionando. Quantos testemunhos legais tivemos acesso. Fica no ar, para todos nós da Oficina de Valores, quantos outros nós nem tomamos consciência.
Hoje, o texto do blog é um desses testemunhos, uma leitora que ao ler a Carta aos Solteiros e a Carta aos Namorados, se sentiu impelida a nos escrever uma carta e a tecer considerações que eu achei muito oportunas sobre esses textos… A você cara leitora, fica o nosso mais sincero agradecimento por gastar seu precioso tempo nos lendo, e mais ainda, escrevendo tal preciosidade. Você nos leu e isso tocou você, agora somos nós que a lemos e, tenha certeza, seu testemunho também mexeu conosco, não só pelo conteúdo mas por todo o significado por trás de tal ato. Sem mais delongas, com vocês a resposta de uma leitora à “Carta aos Solteiros”.
Caro Amigo,
Curioso, porém gratificante, chamar de amigo alguém que conheço há tão pouco tempo. Mas é mesmo o tempo uma das condicionalidades para reconhecer um amigo ou existem outras preciosas informações que determinam as amizades? Penso que tem a ver com o olhar direto, o saber rir de si mesmo, o humor saudável, a disponibilidade para ver o mundo e o outro esperando o melhor de cada um deles, a vocação pra ter esperança, as afinidades, enfim, o “ser do bem”, essas abstrações que permeiam as relações.
Li seus artigos sobre “ser solteiro” e sobre “namorados” e achei ambos muito interessantes e me identifiquei com algumas das situações ali descritas, haja vista, minha condição de solteira e de (ex) “namorada”. Todavia, acredito que as “acontecências” desses meus cinquent’anos tenham me apresentado um tipo de solteiro que talvez você ainda não tenha reconhecido.
Esse espécime não é alguém que está solteiro, ele é solteiro. É alguém que mesmo namorando, noivando, estando casado, continua essencialmente sozinho. Eu já amei alguém assim, e sei bem do prazer e da dor que pode causar.
Esse exemplar pode até manifestar alterações de humor, porém, não partilha fracassos, dúvidas, medos, angústias, dissabores… Vive solitariamente suas dores. Anuncia as vitórias e conquistas, mas por alguma razão, rejeita ferozmente as fragilidades que o humanizam e, a entrega advinda do amor, põe em xeque a segurança que lhe serve de escudo. Alguns deles são sedutores, talvez por representarem desafios, e só muito tarde, percebe-se o abismo que trazem consigo, os descaminhos de seu coração .
É impossível traçar com ele projetos que a parceria estabelecida pelo amor exige. Os projetos dele são dele, ele não tem competência para viver o “nós”, porque sua única companhia sempre foi o “eu” . Viver um amor rouba dele a individualidade. Essa pessoa não aprendeu a amar, partilhar, a confiar, se dar, fazer concessões e, o mais triste, não sabe receber amor. Para ele ser amado não é uma dádiva, um presente, mas um fardo que impossibilita sua caminhada.
Enfim, existe o solteiro que não aprendeu a ser parceiro, que não descobriu a bênção de uma mão estendida, nem o prazer de oferecer e receber amparo. Que ignora a alegria da partilha. Esse é o verdadeiro solteiro, pois não sabe acolher e não aceita ser acolhido. É alguém, verdadeiramente, pobre, mesquinho que optou pela “sozinhez”.
Amigo, nada disso é amargura, são considerações sobre uma experiência vivida e comiseração por todos aqueles que recusam a redenção de se entregar as dores e delícias inerentes a amar e viver a dois.


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