O necessário Deus esquecido

As Crônicas de Nárnia – C.S. Lewis

Talvez este seja o texto menos lido da trilogia desta semana (acesse o texto 1 aqui e o texto 2 aqui). Ou talvez seja tão lido quanto os outros e considerado menos interessante. Neste texto Deus está no título e sei por experiência o quanto isso costuma rechaçar os leitores. Na verdade até entendo quem faz assim. Eu mesmo o faço as vezes que troco de canal quando começam certos programas religiosos. Peço, no entanto, que o leitor me acompanhe. Espero não ser chato nem banal, mas se não o conseguir, saiba ao menos que não foi por falta de esforço.

Esta semana o tema do blog foi a tristeza. Seguindo os passos da medicina busquei apresentar os sintomas e elaborar um diagnóstico. Resta agora prescrever o tratamento. Confesso que estava bem mais entusiasmado quando comecei a escrever; pensei nos artigos e achei que estavam com um excelente encadeamento lógico. Continuo achando isso, mas agora percebo que talvez tenha “dado um passo maior do que as pernas” e me colocado
em uma tarefa maior que minhas capacidades. Que o leitor saiba que se a receita não for bem escrita, ao menos é a que eu sigo.

No último texto falei sobre as causas da tristeza e terei que voltar ao tema para que este possa fazer sentido. Explicitarei aqui mais um motivo do vazio existencial contemporâneo. O homem moderno realizou e realiza maravilhas; basta olhar para o mundo à volta e ver o que fizemos. Mesmo com todos os limites, conquistamos terras, céus e mar. Aumentamos a expectativa de vida, conseguimos nos comunicar instantaneamente com praticamente qualquer ponto do globo e já faz muito tempo que não precisamos de 80 dias para dar a volta ao mundo.

É impossível, no entanto, não notar que apesar de todas estas grandes realizações algo nos falta. É difícil realizar um diagnóstico sincero do mundo atual e dizer que a média dos homens se encontra realizada. Para se ter uma comprovação empírica do que estou dizendo basta ver a proliferação de doenças da psique. Transtorno bipolar, depressão, stress. Não digo que tais problemas não existiam no passado, mas é fato que os problemas psíquicos refletem o entorno social.

Aquilo que falta ao homem é o próprio homem. Me explico: acredito que a angústia atual decorre de um processo de aleijamento. Estamos já há um bom tempo a negar uma parte fundamental da nossa natureza – o apelo do transcendente.

Viktor Frankl escreveu um livro bem interessante chamado “A Presença Ignorada de Deus” no qual defende que a psique humana possui uma espécie de inconsciente espiritual, ou seja, somos feitos de tal forma que temos a necessidade de um absoluto. Um argumento parecido pode ser encontrado em diversos outros autores e, acredito eu, pode também ser constatado em um sincero olhar para si.

Esta necessidade do transcendente, no entanto tem sido sistematicamente negada. Vou me segurar para não dar vazão ao meu lado professoral, mas não consigo deixar de falar das três grandes etapas da negação de Deus.

Em primeiro lugar veio a ideia de que a religião decorria da ignorância. Muitos dos iluministas do século XVIII acreditavam que mais cedo ou mais tarde a experiência religiosa desapareceria ante o progresso da razão. Augusto Comte, já no século XIX chegou a dizer que a crença no sobrenatural fazia parte de um primeiro estágio de pensamento humano, estágio este que estava destinado a ser superada.

Em um segundo momento vemos que Deus e o transcendente não são mais vistos como uma crença infantil, mas sim como o grande inimigo. “O ateísmo é um humanismo” bradou Feuerbach. “A religião é o ópio do povo” vociferou Marx. Estes e mais outros julgam que o sobrenatural faz esquecer o humano, que o céu gera a alienação na terra, que o divino impede o crescimento humano.

Por fim, temos a ideia de que Deus é uma doença. Este é o grande ponto de vista de Freud. A religião nos impede de encarar a verdade de que vamos morrer. Ser ateu é ser alguém que não mente patologicamente para si e que tem coragem de viver a verdade da vida…

Negamos Deus na tentativa de afirmar o homem. Hoje não seria difícil perceber como Ele faz falta. Seria difícil se ele não tivesse sido esquecido. Sei que muitos dos que me leem agora podem julgar que estou exagerando, afinal fala-se muito de Deus e os ateus são uma minoria. Apesar disso, continuo afirmando, Deus foi esquecido.

É fácil perceber isso quando olhamos à volta e percebemos que a concepção de divino é bastante fluida. Pergunte a cem pessoas aleatórias que dizem crer em Deus quem é Deus. Posso garantir com total certeza que muitas respostas vagas virão. Volto à metáfora do mutilado ao dizer que muitos falam do transcendente, mas o vivem como alguém que perdeu a pena sente a dor do membro que não mais está lá. É apenas um fantasma.

Deus, no entanto não morreu como afirmou Nietzsche. Foi banido…E isso pode mudar. Não quero fazer um proselitismo vulgar, mas não consigo deixar de afirmar que o homem só será feliz quando for inteiro e para ser inteiro não pode enxergar-se apenas como matéria. Ao contrário do que Feuerbach dizia, o homem não é apenas o que come. Como diz a canção “a gente não que só comida”… Posso dizer hoje que não queremos também apenas “bebida, diversão e arte”, embora estas sejam muito bem vindas; necessitamos de um absoluto que sacie um coração que não se contenta apenas com o relativo.

Uma pessoa com Deus tem problemas, assim como uma sociedade na qual seus membros O aceitam também tem. A diferença é que neste caso no lugar do nada há um solo firme e, como já bem disse Arquimedes, quando temos o ponto de apoio correto é possível mover o mundo.

Dar vazão ao apelo do transcendente e encontrar aquele que colocou em nós esse apelo não banirá a tristeza das intempéries da vida. Choraremos pelos mortos e sofreremos com os que sofrem; O que irá embora será a falta de sentido, o absurdo de uma vida baseada no vazio.

Deus foi esquecido, mas ele é necessário.

O que me dá esperança é que Ele está por aí! E nós estamos aqui…


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