E se foi a única oportunidade?

Três meses nos Estados Unidos, numa cidade relativamente pequena, me fizeram chegar a uma conclusão: eu sou o Brasil para os americanos que conviveram comigo aqui. É isso mesmo. Não é que eu seja simplesmente um dos milhões de brasileiros. Não, eu sou o Brasil.

Digo isso porque tive a oportunidade de trabalhar num lugar onde outros intercambistas já trabalharam. Ucranianos. E as marcas deixadas por eles foram ruins. Não queriam trabalhar, além de desrespeitarem as pessoas com tom de superioridade. Escutei, então, de uma pessoa, o seguinte argumento: “os ucranianos são esquisitos”. Logo pensei: “espera aí, aquelas pessoas podem ser esquisitas, mas por que isso determina que todos os ucranianos sejam assim?” Achei um tanto quanto injusto. Mas tudo bem, somente uma pessoa havia dito isso. As coisas mudaram dentro da minha cabeça, porém, quando comecei a escutar o mesmo argumento, repetida vezes, de diversas pessoas.

Tentei passar por cima da injustiça e procurei entender as razões dessa fala. Ao pensar que, provavelmente, aquela tenha sido a única oportunidade que esses americanos tiveram de conviver com um ucraniano, as coisas começaram a fazer mais sentido para mim. É muito possível, também, que eu tenha sido a única chance que eles tiveram de conviver com um brasileiro. Algo diferente chega para fazer parte da rotina deles, com uma cultura completamente diferente, uma língua desconhecida, não é estranho que eles estereotipem e, depois de ter uma opinião formada, me tomem como sendo o “povo brasileiro”.

Ao se aproximar o fim da viagem, escutei de um colega de trabalho: “há um tempo queria ir para o Brasil pelo que escutava falar sobre as mulheres, depois de ter conhecido você e o Daian – o outro brasileiro que trabalhou comigo-, quero ir pelo que vi que as pessoas são”. A visão do homem sobre o Brasil mudou completamente por ter convivido com duas pessoas de lá. Poderíamos ter deixado as marcas que fossem na vida dele, e elas, de certo modo, representariam o nosso país.

Isso me fez refletir sobre a responsabilidade dos nomes que carregamos junto com quem somos. Eu não sou simplesmente a Nathalia. Eu sou a Nathalia, brasileira, católica, criada pela família Carvalho. É isso que a maioria das pessoas, que não me conhecem intimamente, tem conhecimento a meu respeito. E, portanto, atitudes minhas que não condigam com qualquer um desses títulos, não serão atribuídas somente a mim, mas à instituição da qual sou representante.

Em meio aos escândalos envolvendo pedofilia dentro da Igreja Católica, por exemplo, que acabaram por se tornar um assunto de grande repercussão na mídia pelo mundo, acredito ter faltado um pouco do cuidado sobre o qual venho falar. É certo que os erros de algumas pessoas não podem determinar o que a instituição é como um todo. Acho injusto. Assim como, mesmo fazendo um esforço para entender os motivos, continuo achando injusto os meus colegas de trabalho atribuírem a esquisitice a todos os ucranianos, tendo por base somente dois. Mas percebi que é isso que acontece. Tanto para o mal, quanto para o bem.

Pode ser que falte mesmo essa consciência em toda a sociedade. Da diferença entre membro e instituição, entre um erro individual e um erro coletivo, e que isso de fato tenha que mudar. Mas será que não falta também a nós, católicos, consciência da responsabilidade que temos perante a sociedade?

Repito: pode ter sido a única oportunidade que aquelas pessoas tiveram de conviver com um ucraniano, ou com um brasileiro. Assim como, com as pessoas que passam por nós diariamente, pode ser a única oportunidade que terão de conviver com um católico. Nesse caso, eu sou a Igreja para essas pessoas. É isso mesmo. Não é que eu seja simplesmente um dos milhões de católicos espalhados pelo mundo. Não, eu sou a Igreja.



 
 Nathalia Melo
Universitária – Amiga da Oficina de Valores

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