Certo dia estávamos pensando na pauta para o blog quando esse meu querido amigo disse que queria escrever um texto com o título “quando a ciência se torna religião”. Na hora conversamos que eu também escreveria um texto que abordasse as relações da ciência com a fé. Na última semana pensei muito sobre tal texto e não sei se tenho tanta coisa assim a acrescentar, mas para não quebrar a palavra dada colocarei aqui minhas reflexões.
Nós da Oficina de Valores temos como principal missão visitas às escolas, onde damos palestras sobre, hã… valores. Normalmente a reação das turmas é muito boa, os alunos se abrem conosco. Às vezes, no entanto, acontecem coisas extraordinárias. Certa vez, quando uma turma chegou no auditório do colégio para assistir a uma palestra sobre sentido da vida, percebi que conhecia aqueles rostos. Quando falei isso para os alunos ele admitiram que já haviam assistido a palestra, mas queriam ouvir de novo e aproveitaram-se de um engano da inspetora para dirigirem-se ao auditório. Claro que a aula de matemática que eles tinham no horário não teve nada a ver com o ocorrido…
Pois bem, o estrago já estava feito e eu não iria dar a mesma palestra duas vezes para o mesmo grupo. Fiz então uma proposta. Os alunos redigiriam perguntas sobre qualquer tema a respeito de ética ou mesmo religioso que quisessem. Depois, sortearíamos as perguntas e tentaríamos respondê-las. A primeira pergunta sorteada foi justamente aquela que dá o título a este texto: “como acreditar em Deus se a ciência já provou que Ele não existe?”
Hoje vou aprofundar um pouco o que disse aquele dia. Em primeiro lugar disse que a ciência não provou que Deus não existe simplesmente porque isso é impossível. O ônus da prova recai sobre quem afirma, não sobre quem nega. Pensem comigo: se alguém diz que existem duendes invisíveis, quem tem que provar é quem afirmou, e não eu que não acredito nisso. Para mim, que não acredito em duendes, a ausência da evidência funciona como uma evidência da ausência. Sim, eu sei que isso torna a posição de quem nega mais confortável, no entanto, é a mais pura verdade. Quem acredita é que deve expor as razões da sua esperança. Grande responsabilidade para nós!
Um segundo ponto em que toquei naquele dia, e que quero levantar hoje, é que ciência e fé não podem se digladiar porque possuem objetivos diferentes. A ciência, ao menos as ciências exatas, buscam explicar como o mundo funciona. Pensemos, por exemplo, na lei da gravidade. Ela é uma tentativa de descrição da realidade, não uma proposta de sentido da existência. A religião, por outro lado, busca responder as grandes questões humanas que são a identidade, a origem e a finalidade (Quem sou? De onde vim? Para onde vou?). A religião nos dá os “porquês” e os “paraquês”, a ciência os “comos”.
Deixe-me dar um exemplo para ajudar. Um cientista pode dizer que tal substância ingerida em tal quantidade, em tal período e de tal maneira causa um aborto. No entanto, em nome da ciência, não é possível dizer se uma mulher deve ou não abortar. Isso está com a filosofia, com a ética e, para surpresa de todos, com a religião.
É claro que há pontos em que a ciência e a religião se encontram e nesses pontos podem acontecer polêmicas. Acredito que o termo polêmica é muito mal compreendido. Penso que algo é polêmico quando dá margem à discussão. E isso, quando bem vivido, é maravilhoso. Penso que tanto a ciência quanto a religião ganham com esses debates. A religião pode se ver “purificada” de elementos que não lhe são essenciais, mas apenas espelham o conhecimento do povo onde foi gestada. A ciência, por sua vez, pode ganhar encontrando referenciais éticos importantes. Afinal dizer que algo é possível ser feito não quer dizer que ele deva ser realizado.
Acredito piamente, baseado no que li e no que vivi, que ciência e fé não são campos contraditórios, mas complementares. E as mútuas acusações? Penso que parte delas se deve a ignorância, tanto da fé quando da ciência. Basta pensar na pergunta que me foi feita no colégio para chegar a essa conclusão. Outro motivo dos conflitos atribuo ao que chamo de IMPERIALISMO das duas partes. Em certos momentos e ambientes temos um imperialismo religioso que nega a ciência o que lhe é devido. Lembro daqueles que disseram que a Terra não podia girar em torno do Sol porque o livro de Josué disse que o Sol parou e daqueles que negam a existência dos dinossauros porque eles não estão na Bíblia.
Por outro lado, temos o imperialismo científico que busca desqualificar qualquer posicionamento religioso como irracional. Percebemos esse tipo de imperialismo em autores como Richards Dawkins que afirmam que Deus é apenas uma explicação para aquilo que ainda não sabemos explicar, o famoso deus das lacunas. Esse equívoco tem como causa, além da ignorância que apontei acima, uma concepção errônea de racionalidade. Muitos confundem racionalidade com cientificidade, sendo que o primeiro conceito é bem mais amplo que o segundo. A ciência, pelo menos em sua acepção moderna, envolve matematização e uso de experimento, sendo um uso específico da razão. Se esse uso fosse o único, a maior parte do conhecimento humano deveria ser considerada irracional. Literatura e história, por exemplo, não obedecem aos critérios mencionados.
Este meu texto é um tanto diferente dos demais que escrevi aqui para o blog. A grande maioria do que escrevo tem um cunho moral/existencial. Neste, a questão é de outro tipo, embora, afirmo, não deixe de ser existencial. Quantas pessoas não vivem uma esquizofrenia interior se sentido constantemente divididas entre aquilo que lhes é sagrado e aquilo que lhes parece verdadeiro? O grande C. S. Lewis passou por algo parecido. Durante um bom tempo de sua vida foi um materialista convicto, mas amava os mitos e os contos de fada. Dizia que tudo aquilo que acreditava ser verdadeiro era feio e frio, e tudo que amava e julgava belo parecia ser falso…
Escrevo hoje para aqueles que enfrentam dramas parecidos, sejam eles crentes ou não crentes. Escrevo para tentar jogar alguma luz sobre essa questão que já me angustiou bastante. A fé não se opõe à razão, mas a supõe… Bom, vou encerrar por aqui. Termino sabendo que deixei de lado muita coisa, mas, se Deus quiser, este papo continuará outro dia. Com alguns pessoalmente, com outros virtualmente…. Ah, antes de deixar no teclado quero dizer que embora este texto não seja científico, espero que pelo menos tenha sido racional.
Até mais!

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