Ontem foi um dia bastante tenso para mim. Acordei com mais de uma centena de provas para corrigir, e quem é professor sabe, isso não é nada divertido. Além disso, ocorreu a votação no supremo tribunal federal sobre o aborto dos anencéfalos…
Durante todo o dia, debates acalorados ocorreram nas redes sociais e nos meios de comunicação. Acredito que em várias esquinas, salas de aula, bares e ônibus o mesmo tenha se repetido. Não participei dos debates, estava corrigindo provas que deveriam ser entregues hoje.
Na hora do almoço, ocorreu algo que mexeu comigo profundamente e me fez largar a comida no prato. Assisti um programa de entrevistas na TV no qual uma famosa jornalista mediava um debate entre duas pessoas, uma favorável ao aborto de anencéfalos e outra contrária a tal procedimento.
Durante o debate percebi que não deixavam aquele que discordava falar. Tanto a jornalista quanto a outra pessoa que debatiam o interrompiam, falavam junto com ele… Além disso, quando ele citou dados médicos as duas disseram que não eram médicas e não poderiam se posicionar, sendo que conhecimentos da medicina já haviam sido mobilizados por aquelas que agora faziam apelo a ignorância.
Eu me irrito muito quando em uma conversa, ou debate, alguém tapa os ouvidos para o que o outro diz. Cresci ouvindo a famosa frase de Voltaire “posso não concordar com nada do que dizes, mas lutarei até a morte pelo seu direito de dizer”. Acredito nisso e, sinceramente, me decepciono quando vejo que pessoas que bradam ideais democráticos viram as costas para este princípio basilar.
Talvez muitos possam objetar dizendo que o direito de fala foi dado a todos. E estarão corretos…O direito de fala foi dado, mas não a atenção da escuta.
Em minha angústia lembrei de um episódio que vivenciei no meu primeiro período de universidade. Em uma aula de antropologia, discutíamos o infanticídio praticado por algumas tribos e algumas pessoas se mostraram revoltadas com tal prática. Neste momento, tracei um paralelo com o aborto em nossa sociedade. A reação foi extrema e disseram que eu só falava aquilo porque era católico. Ouvi isso algumas vezes quando levantava e tentava defender outras bandeiras…
“Você pensa isso porque é católico!” Será que nunca pensaram que talvez seja o contrário? Que talvez eu seja católico porque pense assim?
Vi ontem a defesa do estado laico, tese em que acredito. Mas a forma com que foi defendida foi preconceituosa, afinal uma ministra disse que mesmo que haja consenso geral em uma sociedade, valores religiosos nunca podem interferir no Estado. Há verdade nesta frase, mas também há risco e discriminação.
Percebi que o argumento de um religioso valia menos apenas porque a pessoa que o defendia era religiosa. A religião parece que se tornou um estigma e os que a portam são vistos como pessoas fundamentalistas que não pensam. Ainda que isto fosse verdade, a atitude de fechar os ouvidos não é correta. Afinal, a verdade de uma crença independe de quem a profere. Atacar a pessoa para desqualificar o argumento é uma falácia. Ad hominem…
Ontem desejei ser ateu, assim como o desejei aquele dia há anos atrás na aula de antropologia. Desejei não porque esteja frustrado com a religião (muito pelo contrário!). Desejei porque queria ser ouvido, porque acredito ter o que dizer sobre um assunto importante. Desejei ser ateu porque a discussão não era religiosa, era humana, mas parece que ser religioso faz com que eu seja, para muitos, um pouco menos humano.
Sei que alguns amigos esforçaram-se por argumentar e foram rechaçados não pela força dos argumentos, mas pela barreira do consenso. Ontem me senti membro de uma minoria desafiando uma unanimidade e vi o como isso é difícil. Muitos citam Nelson Rodrigues ao papagaiar que “toda unanimidade é burra”, mas não possuem a boa vontade de ouvir aqueles que questionam uma possível burrice.
Senti vontade de ser ateu, mas não sou. Fui convencido por uma crença que julgo verdadeira. Quase publiquei um texto fingindo ser ateu, apenas para ver se ouviriam meus argumentos e os responderiam. Posso estar errado, mas gostaria de ser realmente ouvido e convencido dos problemas de meu possível erro. Quase escrevi um texto fingindo ser ateu, apenas não o fiz porque em minha consciência ficou ressoando o preceito “não mentirás”. Ops…agora ninguém se importará mais com o que escrevi, afinal no texto citei um mandamento afirmado pela religião. E vir da religião pelo visto desqualifica qualquer coisa.


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